O CHEIRO
Era o prometido, um cheirar de pescoço e estaria paga a promessa. Mas, não foi bem assim que isso tudo aconteceu.
Dia de sábado, a tarde nublada, uma suspeita de que eu não daria esse cheiro. Sabia que era brincadeira, pois ele tinha sido prometido. Ao desligar o telefone, sinto um cheiro suave que vinha da rua, foi chegando devagarzinho, exalei aquela sensação de paz. Ainda não tinha percebido, mas o cheiro tinha transpassado o meu corpo e penetrado o meu coração. Tive uma sensação de aconchego, de carinho. E fiquei esperando, certa hora o cheiro ia chegar.
Minutos depois, vejo subindo as escadas, os dois amores de minha vida. Um segurando o outro pela mão, e andando de cabeça baixa, tímida, como sempre foi. Ao vê-los subir, senti que o cheiro saia de mim, como se fosse uma exalação. E ao adentrarem, resolvemos isso, cumprimos o prometido de forma muito suave, com um cheiro no pescoço. O coração fez festa, o sorriso travou, os olhos brilhavam, tudo isso em um instante, um pequeno momento, mas que disse muita coisa.
O outro, o abracei com o mais sincero afago, daqueles que os fraternos dão após um tempo de saudade. Ele tímido, mas com um olhar encantador, profundo, daqueles que penetram a alma e dizem a que veio. Também o cheirei, mas não tinha sido prometido, foi apenas uma forma de carinho.
Eles estavam bem perto, aqui ao lado, e pude perceber de onde vinha aquele cheiro todo de afeto. Agora eles foram, mas daqui a pouco os encontro. Um, darei mais um cheiro, um abraço e depois nos amaremos como sempre fizemos. O outro, saciarei a saudade, o abraçarei novamente e lhe farei cafuné. Quem sabe até brincarei com ele, ou assistiremos um filme juntos. Tudo vai depender de onde pesar mais a saudade, o querer, o desejo.
O cheiro foi dado, e ao mesmo tempo ficou em mim. As duas promessas foram cumpridas, e agora o que me resta é amá-los, respeitá-los e viver ao lado deles como se essa fosse minha única opção.
Texto inspirado em Marcílio e Pedro.
Escrito por Leniclécio Miguel.
