domingo, 21 de março de 2010

CRÔNICA.

O QUE O MUNDO ME PROPÔS

Quando eu nasci me deram uma casa, com uma linda mulher e alguns filhos, e sem esquecer do cachorro no quintal, da piscina no terraço e a rede na varanda. Me fizeram uma proposta tentadora, disseram-me que eu seria um excelente profissional, quem sabe um advogado requisitado ou um médico de sucesso. 

E mais tarde teria lindos netos, uma casa de veraneio, um apartamento na cidade grande e uma vida de realizações. Me prometeram o céu se tão-somente eu seguisse uma religião, e depois me condenaram por eu não entender religião alguma. Hoje, como não aceitei nada que o mundo me propôs, sofro as minhas frustrações, que por hora me causam uma satisfação imensa de sempre aproveitar e descobrir o vazio que encontro em cada respiro que dou e vejo que não fui de acordo com a maré.

E é nesses momentos que eu chego perto de Deus, sem precisar de ritual, de sacrifícios ou de redenção. Eu simplesmente respiro, e tenho DEUS. Eu ando, e tenho DEUS. Eu acordo, e continuo tendo DEUS. E por ter DEUS não quer dizer que eu não possa viver a condição humana, pois viver com DEUS é saber que não atingiremos a santificação, mas estamos andando do lado dela.

E voltando à minha vida, eu descobri outras coisas sobre ela mesma, descobri que certo dia me disseram: “Diga com quem andas, que eu te direi quem és”. Eu disse: Andei com os melhores profissionais já existentes na terra e, talvez por obra do divino eu não fui igual à eles. E nem tampouco diferente; fui apenas eu. Com os defeitos e virtudes que eu mesmo escolhi pra mim, com as celebrações e os sucessos que eu comemorei, com as derrotas que eu também comemorei. Andei com atores e, não fui um bom ator. Andei com cantores e, também, não fui um bom cantor. Andei com artistas, mas minha vocação também não era essa. Então, descobri que não é necessário andar com alguém para ser ela, mas que se ver nesse alguém, nos faz ser nós mesmos.

Hoje, estou aqui, indo novamente de encontro às verdades do mundo. Mundo esse que matam por “amor”, mas felizmente não vejo amor em nenhum ato que o homem diz ser. E voltando ao primeiro parágrafo desse texto, eu ainda lembro a você que hoje sou velho, não casei, não tive filhos, minha casa não é uma das melhores, e meu cachorro não está mais vivo. Ou que sou uma bela mulher, mas nasci estéril e como você deve saber, não terei algo parecido com o que me prometeram quando nasci. Ou ainda sou um homossexual, por vezes calado, sucumbido, desesperançoso e, perdi meu trabalho por preconceitos.
Quiseram me dar o mundo, mas esqueceram de me dar amor. Quiseram fazer com que as coisas que pertencesse ao mundo, fossem minhas, mas esqueceram que eu só me sinto feliz, quando eu as conquisto. 
Porque a ordem natural das coisas é darmos valor àquilo que foi conquistado e a desdenhar aquilo que nos foi doado. Mas eu ainda julgo-me um ser humano ideal.

Hoje sou uma mãe solteira, um deficiente físico, um homossexual, um idoso abandonado. Sou o preconceito do mundo, mas não me deixo abater por um mundo como esse, continuo vivendo e sei que a melhor forma de encarar isso é amando, amando sempre. Pois de nada adianta se eu me comparar aos demais, prefiro me comparar ao amor.

Tenho falhas de uma vida normal, eu tenho sonhos de uma criança que ainda não sabe escrever e, somente sonha. Tenho motivos para ainda sorrir, vibrar, me encantar, chorar, amar sempre, perdoar, abraçar, aconselhar, compreender e ser quem eu sempre sou; HUMANO. E agora talvez eu precise apenas de uns amigos, não os melhores, porque os melhores são muito disputados, quero apenas amigos. Que sejam legais, fiéis, sóbrios, atenciosos. Mas que também venham com umas pitadas de frustrações da vida, para que eu me interpele entre eles e diga: “Nisso eu sou melhor que você”. Somente para que em alguns momentos, eu me sinta especial. Pois viver como se vive, não se chega a lugar nenhum se não assumirmos essa condição. 

Então, desista do que o mundo lhe propôs, assuma seus compromissos, suas responsabilidades. Seus direitos, os tenha. Seus deveres, os cumpra. Fazendo isso, saberás que a cada momento que toca os pés no chão, você sente os braços de DEUS.

Leniclécio Miguel
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