segunda-feira, 28 de março de 2011

TEXTO.

Não Se Preocupe Com As Flores
Foi apenas um instante, um momento único e crucial onde em um único olhar pudera-se identificar os encontros. Um banco de praça, uma ligação, uma distração...Somente isso bastou-se para que os dois desejassem estar mais próximos. Mais um olhar, uma recíproca, a aproximação deu-se por completa. Seu nome, meu nome, prazer...
Alguns minutos de conversa; várias identificações, constatações de um destino. Foi preciso uma viagem à trabalho - e do outro lado - uma vontade de passear no shopping e esperar as horas passarem, para somente depois seguir. Mas a vida quis apresentá-los, e fazer um reencontro de almas. Um jeito especial, um olhar tímido, um sorriso distraído, daqueles que só damos quando estamos seguros com alguém. Foi assim que passamos a tarde de quarta-feira, e os outros dias que se seguiram.
Uma caminhada, uma volta no quarteirão, paramos. O pôr-do-sol dava o seu espetáculo e não poderíamos perder tamanha grandeza divina. Momento único, daqueles vividos nos filmes românticos, nas paixões de Machado de Assis, nos poemas de Vínicius. Não sabia descrever o momento, aliás, não saberei nunca. As descobertas, as coincidências – se é que existem, estavam lá. O universo conspirou; os astros, o sol, a tarde, a música, o mar...
Marcamos um novo encontro, quinta-feira às 15h no mesmo lugar, o shopping. Ao chegar, estava lá, de forma tímida, tomando um café. Algo diferente no ar; o perfume estava mais forte, os cabelos bem penteados e o sorriso, este sim, largo como nunca. Ao chegar, não pude evitar, o abraço foi espontâneo, daqueles que preenchem a alma. Prazeres à parte, a satisfação continuo...
...Como pode? Disseram-me. As pessoas especiais estarem tão longe de nós, morarem tão longe... Somente sorri, meio sem graça. Mas pensei o mesmo: “Como pode? Você ser tão especial, tão diferente de todos que amei, e estar tão longe da minha vida?” Os pensamentos povoaram a minha cabeça por alguns minutos.
Já era tarde, tínhamos que nos despedir. Pensei em um novo encontro, mas antes de eu falar, veio o convite: Vamos à praia, amanhã? – Pudera eu responder outra coisa a não ser um sim? Claro que não! Digo: SIM, vamos sim!
Sexta-feira, antes de sair, uma leve chuva, acho que veio para lavar e levar os sentimentos do passado, para ficarmos somente à sós, ou melhor, juntos. Encontrei novamente o sorriso que me marcara desde quarta, o jeito meigo e tímido que me fez suspirar na noite de quinta, o amor que me fez ser tão especial no dia de sexta.
A praia, o sol, o mar...o amor. Tudo estava começando, mas sabíamos que aos poucos ia terminar. Assim como as nuvens aparecem no fim de tarde, como a lua troca de lugar com o sol, e o mar se agita em suas ondas, tudo foi decidido ali, naquele exato momento.
Não te prometo, e nem me prometas, somente por hoje não me esqueça. Não esqueça do meu sorriso quando te vi a primeira vez, não esqueça dos meus olhos quando sorriram pra você. Não esqueça da minha testa franzida quando te ouvia atentamente. Ah, e lembre-se dos sorrisos, das gargalhadas sem fim, das mãos que se apertavam bem forte e trazidas ao peito, queriam penetrá-los.
Não prometa nada, somente me deixe ficar aqui, abraçado com os teus braços...calmo, tranquilo, em paz. Espero teu último carinho, teu último olhar...Mas não quero tristeza, não quero chorar. Quero guardar comigo isso, esse momento eterno.
Pra você! “...Aqui nos encontramos e aqui eternizamos. Obrigado pelos dias. Beijos.” – Era o que estava escrito em uma fotografia do banco da praça onde nos encontramos pela primeira vez. Quanta sensibilidade, quanto cuidado em tornar aquele momento especial. Guardei em meu coração, sem esquecer de nenhum detalhe.
Hoje, ciente do que vivemos, não me preocupo mais com as flores. Não me preocupo com os frutos. Cuido tão-somente dos espinhos, das cicatrizes, das frustrações. As flores, mesmo que esqueçamos de regar, a natureza cuida em regá-las. O sol cuida da luz e de sua fotossíntese. Assim é o amor, mesmo que esqueçamos de cuidar, alguém cuida por nós. Por isso, não me preocupo com as flores, elas sempre brotam, assim como o amor sempre renasce em terra que já foi árida, em coração que já foi tripudiado. Sabem por que? Porque a terra é boa, e como fruto de sua qualidade, dá bons frutos, assim também é o coração, quando bem cuidado.

Texto: Leniclécio Miguel

sábado, 12 de março de 2011

REFLEXÃO.

DE: ONTEM,
 PARA: HOJE.

Quero lhe informar que já não tenho mais esperanças, você chegou e já não tenho mais como viver. E digo-lhe mais: Enquanto eu pude estar presente, fiz de meu curto tempo de vida, o mais intenso possível. Sabendo eu que tinha menos de 24h para brilhar, para ser inesquecível. E dar o melhor de mim foi primordial para você ser quem é – HOJE.
                Acordei cedo, sorri para vários rostos tristes. Brinquei com a solidão enquanto estive deitado. Mas, depois de muitos empurrões, resolvi levantar. Já era hora de fazer alguma coisa. O café ficou passando, o banho já morno - lavava o corpo-alma - de um ser outrora. Vieram os pensamentos, um turbilhão para ser mais honesto. Pensando em como você chegaria, e se chegaria.
                Me preparei durante a tarde para rever o pôr-do-sol, coisa que há tanto tempo tinha esquecido que existia, as correrias fizeram-me esquecer. Ao adentrar a noite, pude perceber as luzes na rua, os carros que passavam num ziguezaguear frenético, e as pessoas preocupadas com o pão nosso de cada dia – nas padarias.
                Ao deitar, os pensamentos vieram e me trouxeram uma reflexão, uma comparação do antes. Vi progressos, mas também vi regressos. E percebi que estava vivo ainda, que podia aprender, errar e também ensinar algo para você, que acaba de chegar.
                HOJE – Seja bem-vindo a mais um dia. E que você saiba dar valor às coisas efêmeras, e que não se acostume com o eterno e nem sonhe com ele. Que a palavra AGORA tenha mais sentido do que todas as outras em sua vida. E que o seu melhor dom seja o de AMAR. Que você se iluda, se desiluda, mas não esqueça que será somente AGORA.
                Daqui a algum tempo eu irei chegar, e você terá que esperar mais algumas horas para trocarmos de lugar. Assim é a vida, enquanto eu estou presente, você é futuro. E que quando você for presente, eu só sirva para dar-te um norte, e te lembrar das coisas, mas que isso não te traga arrependimentos, muito menos, ressentimentos.
                HOJE – estou disposto a aprender com você. A lidar melhor com os meus sentimentos, a respeitar mais as minhas vontades e a praticar a humanização para com todos. E como sei que AMANHÃ eu serei lembrança, quero ser lembrado sem medos, sem tristeza, mas com esperança de que você, HOJE, me faça FELIZ.

Texto: Leniclécio Miguel.

quinta-feira, 3 de março de 2011

ENSAIO.



O Mergulho, o Amor e o Suicídio.
Mergulhei. Agora imerjo nas águas profundas que o amor me mostra. Estou fundo, bem profundo, fico somente com o som que o silêncio me traz. Não vejo mais poluição, tudo agora está nítido, calmo, tranquilo - nas águas quentes desse mar de ilusão. O amor já se foi, o suicídio já chegou, tentei levar outros comigo, mas outrora não conseguira imergir até aonde eu consegui chegar. Então assim, somente assim percebi, que o meu mergulho é somente um prelúdio do amor que espera o suicídio para se confirmar.
É bem assim que encontramo-nos ao entrar num relacionamento. Primeiro, mergulhamos de cabeça, e por vezes, não medimos esforços para ir ao mais fundo possível. Esquecendo, que nesse mergulho, estamos levando um outro ser conosco, e que possivelmente um dos dois terá mais fôlego para ir mais fundo.
De repente o outro perde o fôlego, precisa voltar à margem e tomar mais fôlego para mergulhar novamente. Você já está dentro, e como tem mais fôlego, prefere ficar a ter que retornar de uma investida profunda nesse mergulho. Você se desprenderá do outro e se sentirá sozinho no fundo do mar, ao perceber-se só, pensará que o outro fez isso apenas por abandono ou por covardia, mas esquece que o outro tem limite e que o seu não é igual.
O outro volta, toma fôlego, mas agora prefere não mais arriscar o mergulho tão profundo como antes, você já está imergido e totalmente mergulhado e não consegue retornar ao ponto que o outro se encontra. O outro não arrisca ir mais longe, pois sabe que não tem mais fôlego para descer as águas. Você por sua vez, prefere não voltar, porque precisa chegar ao seu objetivo final – o suicídio.
O amor agora está correndo riscos, você não quer mais voltar à margem, e o outro não quer imergir ao seu encontro. Tornou-se o impasse, decidir o desfecho desse mergulho será uma questão de honra aos dois. Um prefere culpar o outro por não ter voltado ao ponto que estavam. O outro prefere ficar na zona de conforto e ser mais responsável ao ponto de não querer descer além do que o seu limite permite.
O suicídio deu-se devido a pouca resolução e muita disputa de poder. O suicídio foi a forma que o amor encontrou para tirar de dentro a dor. A cada dia, ele se matava um pouco para dar vida ao outro ser que o relacionamento exigia. Primeiro cedia um pouco, depois esquecia-se um pouco de si mesmo, e anulava-se quase que sempre para ter o outro como prêmio. O amor se suicídio aos poucos, precisou de muita falta de atenção, descompromisso, desrespeito e desonestidade. Porque o amor, sempre esteve pronto. Ao mergulhar, ele sabia que poderia ir mais longe, mas limitou-se em apenas esperar o outro ir junto, perdeu-se nas águas, no mar da ilusão. Hoje, o que resta são dois corações partidos, dois corpos ausentes, quatro mãos que não se tocam, quatro olhos que não se olham e uma distância. O amor se suicidou, cansou de ficar entre eles, achou melhor arrancar de vez aquela dor que sentia toda vez que um duvidava que ele existia. Agora, depois de jazido, nada pode ser feito, senão, sepultá-lo para que breve ele ressurja no coração de outro ser.

Leniclécio Miguel.