Um Diálogo Com o Coração
Tudo bem, agora é a minha vez de conversar com você... Primeiro, gostaria de saber algo. De fazer uma pergunta um pouco capciosa, mas que vai me ajudar a entender alguns porquês. Me responda: Por que você insiste em ter outra pessoa além de mim? [...] Por que você não contenta-se com os meus amigos ao seu redor, com meus familiares lhe agradando, e com meus colegas de trabalho sempre elogiando-me? Além de tudo isso, você ainda quer outro alguém? Persiste em arriscar? Em sofrer? [...] É, mas você não sofre...
Quem sofre sou eu, você sabe disso. Então, me responda, por quê?!
Certo, você não vai responder?! Então, eu ainda continuo, e pergunto-lhe mais: Não está satisfeito com o meu amor? Não está satisfeito com a vida que eu levo junto a você? Não se satisfaz com os meus sorrisos, minha alegria, até vez por outra à minha felicidade? Me responda! Me fale algo, me tire desse monólogo, e interpele-se comigo, senhor emoção!
Mas eu ainda continuo, até você criar coragem e em alguma hora se manifestar. Ou você acha que tudo que eu já sofri não foi por sua culpa? Por sua insatisfação comigo, querendo sempre amar mais que a mim. Você entende o quanto eu me esforço para lhe agradar? Para encontrar alguém que o agrade, também?! Não, você não entende. Se entendesse, saberia sentir o que eu sinto quando não sou correspondido, quando sou mal amado, ou até mesmo, desprezado. E você, você continua aí, batendo a 80, 90, 100 até 140 por minuto. E eu?! Eu por ora paro, descompasso, desequilibro, desando... Às vezes, chego até a perder o rumo, somente por sua causa, seu ingrato!
Ah, é? Não vai se pronunciar? Então, de hoje em diante, e de agora para sempre, não te darei mais o bel-prazer se sentir amado. A partir de agora, evitarei os rostos sorridentes, encantadores, simpáticos, felizes, apaixonantes, ou seja lá qual adjetivo for de flerte, paquera, envolvimento, desejo, prazer, amor. É, agora será assim... Já que você não se pronunciou, eu digo e repito: Você não terá mais amor, entendeu? Não terá!
Contente-se com alguns sentimentos que ainda restam em sua vida, como: bondade (que fora eu quem lhe dei), compaixão (que são os chegados que lhe emprestam), alegria (que você sente ao me ver feliz), e outros, e mais outros. Mas, o amor... Aquele que me tira do chão, que me deixa no ar, que me separa de tudo, e que só me deixa junto a você – este nunca mais você o terá.
E concluo: Não adianta querer que eu volte atrás, nem se pronunciar neste último instante, não vai adiantar. Pode espernear, se humilhar, e até se auto-flagelar, digo e repito: Para mim, já deu! E se você ousar me ludibriar, tentar modificar os meus pensamentos e essa minha decisão, não responderei pelos meus atos, sou capaz até de arrancá-lo de dentro, somente para não te dar este gostinho...
... Agora, encerro nossa conversa, que não passou de um monólogo. Dou-te o direito de réplica, mas não agora, agora estou ocupado demais com a minha idéia, com a minha vontade de não mais deixar-se levar pelo o amor que você tanto insiste em receber, em sentir, em ter. Enfim, prove-me que amar ainda é necessário... Do contrário, você será um órgão inválido em meu corpo!
Texto: Leniclécio Miguel